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A mostrar mensagens de setembro, 2025

4.

Esta noite estive contigo, novamente. Estavas mais velha e triste. No pomar, ofereci-te um pêssego enorme, maduro, mas disseste-me que preferias maçãs. Logo surgiram peras, ressequidas e escuras, magras. Não as recusaste, ágil na apanha. Mas o teu coração pedia maçãs. E numa procura, em redor de nós, havia uma árvore com maçãs, algumas gémeas, de um vermelho-escuro, mas ainda com algum suco. Saíste carregada e só. Acompanhei-te lá fora. E num momento, surgimos deitadas junto a um mar de ondas onde boiava um saco preto, daqueles que usamos para colocar o lixo. Abracei-te imensamente, como se a minha alma tocasse na tua. Senti uma tranquilidade inquieta, transiente, e logo aquele momento cessou. Regressavas de novo a casa, caminhando de costas, de costas recurvadas pelo peso do saco de maçãs. Recolhidamente, só.

3.

A amizade. Aquele sentimento bom, feliz e livre. Livre de convenções, de barreiras, de segredos, de constrangimentos. Aquele estar, amplo e leve, apenas por estar, não importa o que se diga. Aquele querer sempre estar, aqui, além, do infinito ao ante finito, que é o pouco tempo que nos resta. Aquele amar sem vergonhas, sem rodeios, sem medos. Aquele gostar que aumenta sempre, sem que nos importem as contrariedades, nem as venças e desavenças, desfeitas num abraço sentido. Por isso, por ser tão verdade, a amizade não tem fim nem hora marcada para o regresso. A amizade é um reencontro constante, é brisa doce que ondula ao verde-mar do campo, da terra perfumada. A amizade é sermos humanos, é sabermos que somos falhos e imperfeitos, é reconhecer os nossos erros e os dos nossos irmãos-amigos, e recebê-los com delicadeza, compreensão e respeito. Porque nesta vida andamos todos a aprender, todos, sem exceção.

2.

A individualidade, a unicidade, a inefável certeza de sermos unos e um só. Uma alma que se conhece, aos limites, à inquietude sem recantos nem sombras. No presente, do presente, renasce o ser possível, as manhãs veladas pelo sono, os pássaros, que voltaram a ser pássaros, as canções volantes e coloridas, de um verde de mil verdes, de um azul sereno e branco e luminoso. Sobreviveram as raízes, o querer bem ao mundo, o lado claro e doce e sereno. O imo que abraça e ama e sente. As raízes que se não podem negar, porque somos nós. As raízes que se espalham e dispersam, num sem número de caminhos possíveis, num infinito desconhecido de futuros. E no regresso, neste regresso ao princípio, neste voltar à origem, reencontro aqueloutro coração perdido, que afinal esteve lá, onde foi vivo.