Mensagens

4.

Esta noite estive contigo, novamente. Estavas mais velha e triste. No pomar, ofereci-te um pêssego enorme, maduro, mas disseste-me que preferias maçãs. Logo surgiram peras, ressequidas e escuras, magras. Não as recusaste, ágil na apanha. Mas o teu coração pedia maçãs. E numa procura, em redor de nós, havia uma árvore com maçãs, algumas gémeas, de um vermelho-escuro, mas ainda com algum suco. Saíste carregada e só. Acompanhei-te lá fora. E num momento, surgimos deitadas junto a um mar de ondas onde boiava um saco preto, daqueles que usamos para colocar o lixo. Abracei-te imensamente, como se a minha alma tocasse na tua. Senti uma tranquilidade inquieta, transiente, e logo aquele momento cessou. Regressavas de novo a casa, caminhando de costas, de costas recurvadas pelo peso do saco de maçãs. Recolhidamente, só.

3.

A amizade. Aquele sentimento bom, feliz e livre. Livre de convenções, de barreiras, de segredos, de constrangimentos. Aquele estar, amplo e leve, apenas por estar, não importa o que se diga. Aquele querer sempre estar, aqui, além, do infinito ao ante finito, que é o pouco tempo que nos resta. Aquele amar sem vergonhas, sem rodeios, sem medos. Aquele gostar que aumenta sempre, sem que nos importem as contrariedades, nem as venças e desavenças, desfeitas num abraço sentido. Por isso, por ser tão verdade, a amizade não tem fim nem hora marcada para o regresso. A amizade é um reencontro constante, é brisa doce que ondula ao verde-mar do campo, da terra perfumada. A amizade é sermos humanos, é sabermos que somos falhos e imperfeitos, é reconhecer os nossos erros e os dos nossos irmãos-amigos, e recebê-los com delicadeza, compreensão e respeito. Porque nesta vida andamos todos a aprender, todos, sem exceção.

2.

A individualidade, a unicidade, a inefável certeza de sermos unos e um só. Uma alma que se conhece, aos limites, à inquietude sem recantos nem sombras. No presente, do presente, renasce o ser possível, as manhãs veladas pelo sono, os pássaros, que voltaram a ser pássaros, as canções volantes e coloridas, de um verde de mil verdes, de um azul sereno e branco e luminoso. Sobreviveram as raízes, o querer bem ao mundo, o lado claro e doce e sereno. O imo que abraça e ama e sente. As raízes que se não podem negar, porque somos nós. As raízes que se espalham e dispersam, num sem número de caminhos possíveis, num infinito desconhecido de futuros. E no regresso, neste regresso ao princípio, neste voltar à origem, reencontro aqueloutro coração perdido, que afinal esteve lá, onde foi vivo.  

1.

Para trás um mar sem princípio nem final. Extensão plana de águas densas, turbilhão de sentires e palavras de coragem. Num tempo em que o amor era a causa maior do agir, e aquela força interna rugia e desbravava todos os limites, todas as implicações sociais e práticas.   Agora a solidão é diferente, estar só é realmente estar só, sem peito síncrono, sem pensamento nem palavra irmã, lá do outro lado da vida, sempre presente, sempre aqui.   O tempo passou, difícil, árido, incrédulo, descrente. Os mesmos espaços, a mesmíssima matriz. Presente que me ficou estranho e duro. As rotinas de outra vida, longe, da qual restou um amargor pálido e triste.   Dorme, dorme no teu leito são e verdadeiro, criança amiga. Não estás só, eu estou aqui contigo. Abraço-te imensamente, dou-te o meu calor, o meu corpo como escudo, o meu amor de sempre, para sempre. E se dessa combustão afável brotarem lágrimas, deita-as para fora num fluxo imenso de palavras que se não escrevem, mas sentem, e ca...